Beata Maria de Araújo

Padre Cícero não saia de sua igreja, ali, passava horas a fio, chegando a alimentar-se apenas uma vez ao dia e fora de hora. Com este modo de viver só na igreja, começaram as confissões e comunhões. O povo começou a dar o nome de “beata” às frequentadoras das comunhões diárias. Elas por sua vez, arranjaram um traje especial: todas vestidas de preto com as cabeças também cobertas por um xale preto. Mal apareciam-lhe os olhos.

Entre elas distinguia-se uma cabocla chamada Maria de Araújo, filha de Antônio da Silva Araújo e Ana Josefa do Sacramento, nascida Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo em 23 de maio de 1863, em Juazeiro do Norte. Órfã de pai e mãe, foi morar na casa de Padre Cícero, e sendo artesã (Fiava o algodão e fazia bonecas de panos para vender.), ensinava seu ofício para outras meninas, a pedido do padre. Era assídua frequentadora da igreja e comungava diariamente. Numa ocasião, decorria março de 1889, quando ao colocar a hóstia na boca, esta transformou-se em sangue, enchendo sua boca, o que voltou a acontecer dezenas de vezes por dois anos.

O padre afligiu-se com aquilo e recolheu tudo em um vaso separado.  Em outras ocasiões a hóstia chegou também a se transformar numa porção carnosa em forma de coração. E no corpo da beata eram abertas chagas que depois de algum tempo iam desaparecendo misteriosamente, sem deixar nenhum vestígio. Ela também apresentava suores de sangue e entrava em êxtase. As demais beatas entenderam que o fato acontecera porque Maria era santa, mas Padre Cícero proibiu que aquela notícia se espalhasse. No entanto, o fato foi comentado de boca em boca, “em segredo” para que o padre não descobrisse, mas era impossível abafar tal acontecimento, que corria mundo, dando a beata como santa.

Alguns anos se passaram com esta notícia sendo propagada às ocultas, dessa forma começaram a aparecer diversos romeiros, que achavam ser seu dever residir em Juazeiro por causa do “Milagre do sangue”. O povoado já contava com certa de quarenta famílias, atraídas pelas notícias.

Com a reforma da igreja, Padre Cícero encomendou, diretamente de Paris, uma imagem da Virgem Maria em tamanho natural e de uma perfeição admirável. Para a solenidade de benzimento, foi convidado o Padre Francisco Rodrigues Monteiro, na época, vigário de Iguatu. Chegando em Juazeiro, o vigário pediu ao colega de hábito que lhe contasse sobre a beata Maria de Araújo. Padre Cícero tentou esquivar-se, mas com a insistência, contou o que acontecera, pedindo o maior sigilo. No dia seguinte, por ocasião do sermão, o vigário Monteiro esquecendo-se que era segredo, declarou em público, que entre seus ouvintes havia uma santa, a beata Maria de Araújo, “Aquele sangue, era o sangue de Jesus”, dizia ele.

Esta notícia espalhou-se com a rapidez de um raio. Se só com os boatos espalhados em segredo, já apareciam romeiro de diversos pontos, imaginem só o que aconteceu depois daquela declaração formal. De todos os lugares, próximos ou afastados, chegavam romeiros ansiosos por presenciar o estupendo milagre do sangue de Cristo.

Na época, os médicos Madeira e Ildefonso Lima examinaram a “santa” e atestaram ser o sangue divino e milagroso. O povo e Padre Cícero, acreditaram piamente no milagre.

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A notícia rapidamente chegou aos ouvidos do bispo D. Joaquim José Vieira que chamou o Padre Cícero a Fortaleza para esclarecer o acontecido. O bispo ficou intrigado com o relato ouvido, mas, pressionado por alguns segmentos da Igreja Católica que não aceitaram o relato, enviou dois sacerdotes de sua confiança, os padres Clicério da Costa Lobo e Francisco Pereira Antero, para investigar os acontecimentos. Depois de algumas experiências e de ouvirem relatos de testemunhas, deram o caso como divino.

O bispo não gostou do resultado e convocou uma nova comissão constituída pelos padres Antônio Alexandrino de Alencar e Manuel Cândido, a qual concluiu não haver milagre. O relatório do inquérito foi enviado à Santa Sé, em Roma, e esta confirmou a decisão tomada pelo bispo, declararam que não havia milagre, era puro histerismo e nada mais. Esta decisão, porém, não convenceu ao povo, que continuou na sua primitiva crença: era milagre e ninguém os convencia do contrário. No depoimento prestado à Primeira Comissão de Inquérito, designada pelo bispo Dom Joaquim José Vieira para investigar o fenômeno, ela disse que quando entrava em transe visitava o inferno e o purgatório, e falava com Jesus Cristo. (…)

Logo depois da decisão da igreja, o Bispo ordenou a reclusão de Maria de Araújo à Casa de Caridade do Crato, a fim de acabar com o suposto milagre. Inconformada com a reclusão, a beata saia do convento à noite, ia a Juazeiro comungar e voltava à sua prisão, por fim, ficou impedida de sair. Negra, pobre e analfabeta, ela foi torturada, humilhada e enclausurada na casa de Caridade do Crato, enquanto o Padre Cícero terminou afastado da Igreja.

Maria de Araújo passou os últimos anos de sua vida enclausurada até falecer em  17 de janeiro de 1914.  No dia 22 de outubro de 1930 seu túmulo foi aberto clandestinamente por ordem do Bispo do Crato. Seu corpo, mandado sepultar por Padre Cícero no interior da Capela do Socorro, desapareceu e até hoje seu destino é ignorado.

A escritora Nilze Costa e Silva escreveu o livro A mulher sem túmulo, onde conta a biografia da beata.

Fonte: Curiosidades e Factos Notáveis do Ceará (J. G. Dias Sobreira / 1921)
Fonte 2: Enciclopédia Nordeste
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