PADRE CÍCERO, O “SANTO” EXCOMUNGADO

CÍCERO (ESQ) E UM COLEGA DE SEMINÁRIO

Cícero Romão Batista nasceu no Crato-CE, em 23 de março de 1844. Ordenou-se em 1870, contra o voto do reitor do seminário, que lhe censurava a propensão a visões. Os habitantes de Juazeiro foram então, convidar o novo padre para seu capelão, prometendo certa quantia para sua manutenção e de sua família. Arranjaram a condução e o transportaram até lá, em abril de 1872 fixou-se como pároco em Juazeiro do Norte, que tinha então cerca de 300 habitantes. Nos três primeiros meses o acordo financeiro fora cumprido, mas a habitual pobreza dos moradores, impediu a continuidade do acordo, apesar disso, Padre Cícero continuava em suas funções, vivendo só para os afazeres da igreja, de onde quase não se afastava.

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As famílias abastadas da região, desde sua chegada, enviavam-lhe cargas de mantimentos, de modo que, nada faltava para seu sustento, de sua mãe e irmã. Só lhe faltava dinheiro, mas ele não fazia o menor caso. Se algum cego ou aleijado lhe pedia esmola, metia a mão no bolso e dava o que encontrasse, sem procurar saber a quantia, grande ou pequena, dava tudo. Se recebia pagamento por algum serviço feito, guardava no bolso e ali ficava esquecido, dando-o ao primeiro pedinte. Só não dava esmolas, quando nada encontrava. Em casa, mandava dar qualquer coisa sempre, assim, cada vez mais adquiria maior estima. Como passava maior parte do tempo na igreja, alimentava-se apenas uma vez ao dia e geralmente, fora de hora, no entanto, continuava forte e sadio, como se seu organismo fosse feito para tal vida. Com esse modo de viver só na igreja, começaram as confissões e comunhões. 

 
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BEATA MARIA DE ARAÚJO

 

Afirmava-se que ao dar comunhão a Beata Maria de Araújo, a hóstia se convertera em sangue. Apesar de exigir sigilo sobre este assunto, ele foi se espalhando boca a boca até tornar-se público. A má construção das torres da igreja, fez com que ruísse após um rigoroso inverno, sobrando somente as ruínas. Padre Cícero não desanimou, convidou o povo em massa, distribuiu o serviço entre todos e deu início à reconstrução, não somente das torres, mas de todo o templo. Para maior regularidade, determinou que no primeiro dia comparecessem todos os homens da letra A; depois da letra B e assim seguidamente. dessa forma, nunca faltou trabalhador durante a reconstrução.Em menos de um ano, ficou terminado o serviço da nova igreja. Era preciso agora uma imagem de acordo, e, para isso, foi feita uma encomenda diretamente a Paris. Em 1887 chegara, por volta do meio do ano, a desejada imagem da Virgem Maria, em tamanho natural e de uma perfeição admirável. Para a solenidade de seu benzimento, foi convidado o padre Francisco Rodrigues Monteiro, na época, Vigário de Iguatu.

Padre Cícero era idolatrado por aquele povo, a maior parte o chamava de “Meu padrinho” e o obedecia cegamente. Por volta de 1886, o povoado contava com umas quarenta famílias, em 1899, já contava com mais de mil e seiscentas. Naquele tempo não havia nenhuma das cidades do interior que chegasse a ser do tamanho da “Povoação do Joaseiro”, mas apesar disto, continuava a ser povoação.Dava grande renda à câmara do Crato, por esta razão, opunham-se formalmente, a que Juaseiro subisse de categoria. Acusado de heresia e de proclamar falsos milagres, padre Cícero foi suspenso em 1897 das ordens religiosas e exilado na povoação de Salgueiro, até ser enviado a Roma, para explicar-se. Em 10 fevereiro de 1898, Padre Cícero embarca para a Europa, com destino a Roma. Vai se defender das acusações de que era um semeador de fanatismos e um desobediente à rígida hierarquia do clero. No Vaticano, a 23 de abril, Cícero protocola na secretaria do Palácio do Santo Ofício uma carta de apresentação, escrita em português: “Como não sei italiano, deixo este papel nas mão de Vossa Eminência”, informa na mensagem endereçada ao cardeal Lucido Parocchi, secretário-geral daquela congregação. “Graças a Deus, tenho consciência de não ter cometido crime algum”, defende-se. Confirmada a suspensão, em 1908 regressou a Juazeiro.Padre Cícero foi excomungado pelo Santo Ofício em 1917 devido a suas atividades em total dissintonia com a religião e desobediência frequente aos seus superiores hierárquicos. A excomunhão foi suspensa em 1921, mas Cícero permaneceu suspenso de suas atividades religiosas para sempre. Ao contrário, porém, do que esperavam as autoridades eclesiásticas, a viagem a Roma só contribuiu para lhe aumentar o renome. Nesse mesmo ano chegou à povoação um médico do sertão baiano, Floro Bartolomeu da Costa, que formou uma oportunística aliança política com o padre Cícero.

Em 1910, mais ou menos, tinha um prelo (aparelho constituído de mármore e rolo movido a mão e usado para tirar provas tipográficas, litográficas, etc) que acabava de chegar em Fortaleza. Padre Cícero ordenou que o remetessem montado, para a cidade de Senador Pompeu, último ponto da estrada de ferro, notícia que passou ao povo dizendo: “Quero ele aqui!”, bastou isso e poucos dias depois, entrada em Joaseiro, grande multidão com o prelo nos ombros e gritar triunfantemente: “Viva meu padrinho Padre Cícero!”. A distância é de cerca de 50 léguas (300 quilômetros) e o peso de algumas toneladas.  A política interveio e, afinal, conseguiu elevar-se a Vila. A política dominante de Juaseiro, temendo que, viesse a perder a sua influência perante os chefes da capital, conseguiu elevar a Vila do Joaseiro à categoria de cidade. Menos de dois anos foram necessários para conseguirem sua emancipação.

Em 1911 o distrito foi elevado a município, com o padre Cícero como prefeito. Presidiu, então, um pacto de coronéis da região em apoio ao governador do Ceará, Antônio Pinto Nogueira Acióly. Em janeiro do ano seguinte, porém, Acióly foi derrubado e sucedido pelo coronel Marcos Franco Rabelo, como parte do movimento, contra as oligarquias nordestinas, chamado “salvações”. Quando Rabelo exonerou o padre Cícero das funções de prefeito, Floro Bartolomeu foi ao Rio de Janeiro para obter de Pinheiro Machado o apoio do governo federal a um plano que visava a depor Rabelo e restabelecer o domínio dos coronéis. De volta ao Ceará, Floro comandou o ataque ao quartel da força pública de Juazeiro, em 9 de dezembro de 1913. Três dias mais tarde, uma “assembléia legal” o nomeou presidente temporário do sul do estado. Ao saber do apoio de padre Cícero ao movimento sedicioso, Rabelo ordenou ao sacerdote que restabelecesse a ordem e este respondeu que não podia evitar que o povo se defendesse. Era o início da guerra dos jagunços.

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PADRE CÍCERO E FLORO BARTOLOMEU

Com trinta mil habitantes, Juazeiro já se tornara a segunda cidade do sertão do Cariri, depois do Crato. O exército de jagunços, recrutado entre cangaceiros e romeiros, ergueu trincheiras em volta da cidade e repeliu os ataques da força oficial. Amparados na crença de que “homem abençoado pelo padim Ciço não morria de bala”, os rebeldes marcharam contra Fortaleza, saqueando as cidades no caminho.

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Em março de 1914 o governo federal decretou a intervenção no estado e destituiu o governador Rabelo. A guerra civil acabou. A população excedente de Juazeiro foi encaminhada para as fazendas da região, inclusive as propriedades do próprio padre Cícero, já então “o maior agricultor do Cariri” e importante “coronel” da oligarquia local. Elegeu-se sucessivamente vice-governador e deputado federal, e só não foi governador porque não quis afastar-se de Juazeiro. A fama de seu nome ia do Amazonas à Bahia. Considerado santo e profeta infalível, alguns o tinham até como pessoa da Santíssima Trindade. O próprio Lampião visitou-o mais de uma vez. O declínio político do padre Cícero acompanhou a decadência do cangaço, sobretudo após a revolução de 1930. Em 1933 seu candidato foi derrotado nas eleições para a Assembléia Constituinte.

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Elegeu-se prefeito, vice-governador e deputado federal. Concedeu a patente de capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, para que o célebre cangaceiro enfrentasse a Coluna Prestes em sua passagem pelo Nordeste. “Sempre respeitei e continuo a respeitar o Estado do Ceará, porque é o Estado de Padre Cícero. Como deve saber, tenho a maior veneração por esse santo sacerdote, porque é o protetor dos humildes e infelizes”. (Lampião referindo-se a Padre Cícero, em entrevista de 1926)  

 
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ENTERRO DE PADRE CÍCERO EM 1934

O padre Cícero, até hoje celebrado pelos poetas populares no Nordeste, morreu em Juazeiro,em 20 de julho de 1934.

(Leia o livro “Padre Cícero – Poder, Fé e Guerra no sertão” de Lira Neto)
Fonte: Wikipédia / Livro: Curiosidades e Fatos notáveis do Ceará, de J. G. Dias Sobreira (1921) 

Veja também “Caldeirão de Santa Cruz do deserto
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